Posso te pedir um favor? Entra no clima e coloca um jazz antes de ler o texto. De preferência, Ella, Billie ou Nina. Ou vai de Frank Sinatra mesmo. Mas strongly recomendo " did I Remember". Deixa a luz mais fraca e te senta bem confortável.
Agora preciso contar algumas coisas antes de continuar a saga do encontro com o Woody. Antes de encontrá-lo, encontrei outras pessoas por lá. A viagem de 2 pessoas (Gringa e eu) virou de 4. Nesse furdunço todo pré-viagem decidi convidar o Vi para ir a NY(Vinícius e eu nos conhecemos quando moramos em NY em prédios vizinhos, foi daí que surgiu a amizade de 15 anos). Na mesma hora ele me disse que tinha falado para a Ba (Barbara, nossa amiga brazuca que mora em LA) que queria apresentar a Big Apple a ela. Daí eu fui ao delírio. Porém, o Vi declinou. Mas...uma semana depois ele decidiu ir e chamar a Ba. E daí o quarteto fantástico estava formado para a viagem. Eu e Gringa saímos de POA, o Vi de Santos e a Ba de L.A. Cada um chegou em um momento diferente.
Primeiro o Vi, na noite anterior, depois eu, na manhã seguinte, a Ba, de noite e a Gringa no dia seguinte.
E assim começou uma das viagens mais felizes que já fiz. Fomos a muitos lugares diferentes e todos foram muito legais ( caminhadas perdidas, restaurantes legais, esquisitos e até alguns sujinhos. Casas de jazz, ida ao Brooklyn e ao parque, etc e tal). Já falei que amo NY, de qualquer jeito?
Foram dias incríveis, exaustivos e muito divertidos. Curtimos cada segundo. Temos muitas lembranças e muitas inside jokes para rir.
Desde o início todos sabiam o motivo de eu estar lá. Nenhum quis me acompanhar na indiada.
Pois o dia do show era exatamente meu último dia na cidade.
Toda vez que vou para lá, nos últimos dois dias eu fico meio chata, um pouco irritada e sensível e essa tpm fora de época deve-se a falta de vontade de voltar para casa.
Então imagina meu humor naquela segunda (sim, o Woody se apresenta em algumas segundas de alguns meses). A Gringa foi embora naquela manhã, o Vi decidiu sair sozinho e eu e a Ba ficamos vendo a Gringa partir com os corações apertados e cheias de lágrimas.
Saímos para almoçar e decidi levá-la em um restô que eu amo lá: o Café Lalo. Café onde gravaram o filme "You've got mail", que eu sou apaixonada até hoje. Toda vez que entro ali me sinto a Meg Ryan! E sempre que posso apresento o café para alguém.
Ali almoçamos, bebemos um belo vinho verde, rimos, quase choramos de novo e fomos embora.
Caminhamos por Upper west side naquela bela e ensolarada tarde. O tempo estava agradável. Mas eu sentia um aperto. Aperto por inúmeras razões. No dia seguinte todo o sonho acabaria. Eu iria voltar, sabe-se lá quando a gente iria se reunir de novo, ia deixar a cidade que mais amo e ainda o medo de não conseguir assistir ao show.
Decidi antecipar minha ida para o Carlyle. A Ba me acompanhou. Chegamos no hotel e pedi instruções de como chegar ao local. Nos mostraram o caminho e ali fomos. Entrei em um mundo à parte. O hotel, que até então, por fotos, parecia ser brega e antiquado, era belíssimo. Parecia que estava em um filme, antigo. Sempre me confundo nas décadas, mas para mim era algo entre anos 50 e 60. Um charme total. Chegamos e já havia fila. Uma pequeníssima fila.
Um olhar tenso pairava sobre as pessoas ali. Entre conversas e risadinhas nervosas descobrimos um casal de brasileiros um pouco a frente de nós. Exatamente na minha frente havia um cara que falava inglês, que em seguida descobri ser canadense. Alguém da fila falou alto que havia apenas 8 bancos no bar. Eu contei e percebi que era a décima primeira da fila. "Puxa vida, isso não é possível!", falei para Ba.
Meus lábios levemente tremiam, minhas lágrimas de frustração pediam para sair e eu me recusava a acreditar que tinha feito essa aventura em vão. Jamais foi em vão porque passei dias incríveis com pessoas maravilhosas, porém o objetivo da viagem teria falhado. Decidi apelar e falar com o canadense. Fiz a minha cara de mais triste possível e falei que tinha saído do Brasil só para aquilo. Ele deu um sorrisinho, me olhou de canto de olho e me disse bem baixinho: eu também. Argh! Mas o Canadá é bem mais perto que o Brasil, né???!
No meio disso tudo, um homem que estava muito a frente de nós na fila decidiu abandoná-la. Simplesmente disse que filas não eram para ele. Desejou boa sorte a todos e se foi. Oi???! Como assim? Ba me olhou de maneira motivadora e falava que eu ia conseguir. Uns 15 minutos depois vem uma lady com a chave do café.
Tambores ecoavam na minha cabeça. E agora??? Eu era a décima. Alguém falou em 8 lugares...
Então ela disse que tinham 10 lugares disponíveis. Eu entraria. Eu entraria. Eu entraria.
Eu entrei. Em êxtase. Ba acenou e foi embora. Fiquei ali na porta do café ainda tentando acreditar que tinha conseguido. Sentei e paralisei. Eu e meu sorriso bobo. O barman perguntava o que eu queria beber e eu só dizia: "só um pouquinho....eu entrei. Eu entrei".
Kurt, o canadense, me dava uns tapinhas no ombro e dizia: "congrats, you got it".
Depois disso eu lembro de flashes.
Me vi em um filme. Do Woody Allen, of course.
Estava sentada em um pequeno café, muito charmoso, bebendo um autêntico dry martini, mesclando o português e o Inglês para interagir com o canadense e o casal de brasileiros que sentaram ao meu lado.
Depois de dois dry martinis, muita conversa e uma leve entorpecência, sinto a leve batidinha de ombro do Kurt em mim. Não, não era romance. Era para me avisar que Ele estava ali.
Olhei para trás e ali estava Ele, Woody Allen, a uns dois metros de mim, sentadinho, mexendo em seu clarinete.
I Couldn't believe my eyes!! Era o próprio. Bem velhinho, naquele lusco fusco. Ali o tempo parou e só sentia o calor das lágrimas descendo. Kurt sorria, mais espantado em ver as minhas lágrimas do que com o próprio Woody ( ele já tinha o visto no ano anterior).
Depois desse flash eu lembro de vê-lo no palco. Tocando divinamente. De sentir a música. De sentir o torpor da felicidade. De me sentir plena. Naquele momento eu era plena. Poderia morrer ali. Eu vivia o meu filme, na minha cidade. Com a minha música. Com as minhas cores. Com tudo que havia direito. Foi lindo. Foi mágico. Terminei a noite caminhando (ou flutuando) pelas ruas do Upper East side, meio sem rumo, até pegar um táxi e voltar para o meu hotel, com um bilhete do Kurt na bolsa, com o telefone, email e uma data no papel. Último dia de abril de 2017. Sim, combinamos de nos encontrarmos novamente ali. O papel eu já perdi, a data já não faz mais sentido e nunca mais falei com Kurt, nem com os brasileiros que ali conheci.
A vontade de voltar, de ver o Woody e de retornar ao meu eu pleno continuam. E, com isso fecho esse longo e.moroso texto com as seguintes palavras (tiradas do final de cada capítulo de novela de antigamente): cenas dos próximos capítulos...
Vale cada centavo!
Para quem quiser informações sobre valores do show do Woody, passeios, restôs, casas de jazz me manda email que eu ajudo no que souber. Eu ia escrever tudo aqui, mas ficaria enorme....
Woody Allen and Eddy Davis New Orleans Jazz band no Café Carlyle
Para ver agenda e reservar ingressos
www.rosewoodhotels.com
Café Lalo
201 West 83rd street. NY.
Wew.cafelalo.com
delícia de texto. mas, é, NY tem dessas coisas mesmo. uma urbanidade tão exacerbada, que de repente parece abrir umas bolhas de sonho e, puff, nos solta brincando como hábeis skatistas pelas ruas. bom demais! que feliz q te permitistes isso! depois de amanhã vou pra Praga. AR!!! beijo!
ResponderExcluirHaroldo, minha passagem por Praga daria outro texto! Espero que a tua viagem seja incrível! Beijão.
ExcluirGuriaaaaaaa que momento!!!! Também sou mega super fã do Woody Allen e certamente estaria em êxtase em vê-lo assim tocando jazz(que também amo demais) nesta cidade incrível!
ResponderExcluirFiquei doida pra ir!!!!!!Acho que teria uma síncope....
Beijocas queridonaaaaaa
Vamos combinar um café e bater papo sobre isso! Beijos!
ExcluirVamos combinar um café e bater papo sobre isso! Beijos!
ExcluirGuriaaaaaaa que momento!!!! Também sou mega super fã do Woody Allen e certamente estaria em êxtase em vê-lo assim tocando jazz(que também amo demais) nesta cidade incrível!
ResponderExcluirFiquei doida pra ir!!!!!!Acho que teria uma síncope....
Beijocas queridonaaaaaa
Oi, Fernanda! Tudo bem? Vou a NY e quero fazer o mesmo que você! Queria saber mais detalhes, você se lembra? Será que é preciso chegar muito cedo, você se lenbra que horas chegou? Obrigada!
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